segunda-feira, maio 23, 2005

Sao Paulo, 8 de Fevereiro, 2001

Acordo com o cantar dos passarinhos de peh em cima do cabo de telefone, fora da janela do meu quarto. Meu irmao jah tinha acordado, e deixou as janelas semi abertas. Pude ver o raio de sol entrando, batendo na cama dele, jah com o futon recolhido, com a madeira brilhando ao sol.

Sento na minha cama, de cabeca baixa. Por anos, sempre me apoiei na janela, vendo o ceu escuro, pensando "o que eu faria se essa fosse a minha ultima noite aqui?".

Hoje, pela primeira vez, sinto que essa pergunta finalmente se atribui a mim.

"Esse eh meu ultimo dia aqui. O que vou fazer?"

Fico um momento na minha cama. Olho ao meu redor. Meu quarto. O mesmo quarto que me viu crescer, q me acompanhou durante as noites sem sono por problemas de adolescencia. O mesmo quarto em que me escondia quando minha mae vinha me bater com o pedaco de bambu. O mesmo quarto que todos meus amigos estavam, a meses atras. O mesmo quarto em que eu era mestre. Mestre do meu quarto.

Essa seria minha ultima manha acordando nele. Lembro-me ateh hje, com um ar de paraiso, como era meu quarto durante o amanhecer. O sol batia forte na janela. Os feixes entravam, junto com o ar de Sao Paulo, anunciando um novo dia. Mais um dia que eu veria meus amigos e talvez encontrasse finalmente a mulher dos meus sonhos.

Me troco, dobro meu futon e saio da cama. Caminho pelo quarto, passando minha mesa, minha estante, meu armario. Toco na macaneta da porta. Tudo eh rico e cheio de importancia quando eh a ultima vez que acontece.

Saio do meu quarto e meus pais nao estao. Eles estao comprando coisas no Carrefour. Meu irmao estah embaixo, no quintal, brincando com os cachorros.

Entro no banheiro. Naquele dia, tudo parecia tao limpo, tao especial. Olho para cada canto, cada parte... tentando me lembrar com mais detalhes possiveis, a minha casa. O meu refugio.

Tomo um banho. Os raios de sol entram no banheiro como feixes no vapor. A agua que cai no meu corpo parecem como pequenos cristais puros de agua. Me imagino debaixo de uma cachoeira de aguas cristalinas, num paraiso pessoal. Se torna especial por ser a ultima vez que faria isso.

Quero passar esse ultimo dia junto com meus amigos. Minha mae nao deixa... fala que ultimo dia deveria estar passando com a familia. Penso um pouco... ela tah certa... seria a ultima vez que veria meu pai, por alguns meses, jah que ele nao iria comigo.

Passamos o dia como sempre passamos... somos uma familia unida, nunca tivemos grandes desentedimentos, e apesar de nao demonstrarmos com frequencia, temos um amor e carinho dificilmente alcancados em outras familias.

Meu pai se aproxima, e fala:

"Filho... vah acender um incenso no nosso templo, pra falar que vc jah vai embora, e agradecer por tudo..."

Agradecer por tudo... meu coracao fica triste qndo ouco isso... agradecer por tudo... pq agradecer por tudo? Eles nao vao me abandonar... eu q estou indo embora... eu q estou deixando este templo... o msmo lugar que eu brincava... o msmo lugar q eu treinava... o msmo lugar q eu rezava e tinha reunioes com os amigos mais proximos, tomando chah.

Entro no meu templo. Raios de sol batendo no chao de madeira polida, extremamente limpa. O brilho avermelhado da madeira tanto do chao quanto das mesas me traz um sentimento de nostalgia. Nostalgia de estar perdendo algo, mas nao saber exatamente o que.

Acendo o incenso, frutas e oferendas frescas do dia jah postos pelo meu pai. Olho a cada Buddha. Cada Buddha que me acompanhou desde quando eu era pequeno e brincava no templo, ateh quando eu amadureci e comecer a rezar junto com eles.

Queimo o incenso, faco a genuflexao. Meu coracao fica cada vez mais pesado, ateh o momento, nao sei o q eh essa sensacao.

Algum momento deste dia, recebo a ligacao dos meus amigos, falando que eles vao estar no aeroporto. Agradeco, e desligo.

A sensacao fica mais forte, mas ateh o momento, nao consigo discernir ele.

A noite chega. Estamos jantando, soh minha familia e eu. Estamos sorrindo, conversnado animadamente... mas todos sabemos quao dificil a jornada q nos aguarda vai ser. Todos sabemos quao dificil isso tudo vai ser para meu pai e minha mae. Todos sabemos como isso vai ser dificil para minha mae. Para o meu pai. Para o meu irmao. Para mim.

Brindamos, nosso ultimo brinde no Brasil, com promessas de estar jantando de novo e brindando novamente, soh que em solo Norte Americano. Prometemos que nao importa a distancia, nossa familia sempre serah unida. Q sempre estaremos aih pra todos. E meu pai fala, com akele sotaque q soh ele sabe fazer:

"Eh... um por todos, e todos por um neh?"

Essa frase nunca fez tanto sentido pra mim qnto nessa hora. Sim. Vamos todos estar pro meu pai, que vai estar sozinho. E ele vai estar sozinho e trabalhando, por nos.

Jah eh hora de ir. Minha mae fala parar eu pegar minhas coisas e comecar a levar para a van. Faco uma ultima caminhada pela minha casa, prometendo voltar algum dia, para reve-la. Me despeco da minha cachorra. Ela me olha como se jah soubesse. Me doi ter q ir embora.

Vou para a casa dos meus tios. Me despeco dos meus primos, com quem utlimamente nao tenho conversado ou me dado mto bem. Para eles, soh falo um tchau. Eles respondem com um tchau.

Meu tio estah comendo na sala de jantar. Cumprimento-o com um aperto de maos. As maos dele sao mornas. Em 17 anos vivendo com ele, nunca percebi quao quentes eram as maos dele. Ele me olha nos olhos, com um sorriso. Vejo que os olhos dele estao vermelhos, e embacados.

Caminho para o carro, entro.

Assim que estamos pondo o carro para fora, ele vem para fechar as portas da casa pra gente.

Acenamos pra ele, falando tchau. Ele acena de volta.

Qndo o carro vai, olho pelo vidro de tras e vejo ele enxugando as lagrimas...


Em 17 anos, nunca vi ele chorando. Nunca vi ninguem da minha familia chorando.

E nessa noite, ao ver ele enxugando as lagrimas, vejo como nos todos, estamos apenas tentando segurar as nossas...

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